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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
tio.
Passou mais de um mês, eu fugi do mundo, tirei toda a gente do meu mundo, concentrei a minha força, tirei quem me fazia mal, ganhei paz interior. Mas a dor continua cá, a dor continua a entrar no meu coração, continua a dar cabo de mim, continua a me fazer chorar a cada canto de esta casa, a cada sono eu choro, a cada vez que imagino ele com vida, com energia, todos os dias penso nele e penso que tudo na vida tem um propósito de acontecer, se tiver que acontecer acontecerá, aprendi a não sofrer por antecipação, porque isso só faz mal, a mim, e aos que me rodeiam. Aprendi a sorrir quanto toda a gente perguntava se estava bem, e eu respondia ironicamente: « sim, estou bem ». Queria desistir, queria ir com ele naquele caixão, beijei aquela testa inúmeras vezes, disse-lhe imensas vezes « amo-lhe, amo-lhe » disse-lhe imensas vezes « velhinho não desista, nós precisamos de si », ele não quis ficar aqui connosco, ele quis ir, ele quis deixar o meu mundo, desta vez ele pensou só nele, e não teve medo das consequências da sua decisão e partiu. Para um mundo melhor, para um lugar encantado, para um lugar cheia de pessoas que antes tinham ido. Agora estão todos ali a olhar por mim, por nós. Mas ninguém pensa na outra parte ninguém pensa, nas saudades, ninguém pensa o que é deixar de se ver uma pessoa, com quem via e convivia a 15 anos consecutivos, ninguém pensa, das coisas que ele me ensinou e das coisas que ainda queria ensinar e a vida simplesmente não deixou, porque decidiu que ele devia ter ido agora. Eu estava lá naquele dia, deitei inúmeras lágrimas, pedi milhares de vezes para ele lutar, para ele ficar no mundo, para ele lutar contra aquilo que estava a acabar com ele, tudo o que ele estava a sentir, eu sentia também, ficamos 4h sozinhos, eu falava, ele apertava a mão, eu chorava e sentia as palavras dele a dizer « não chores, eu vou em paz ». Por mais que eu soubesse e sei que ele foi em paz. Eu queria a presença dele, sentir que ele estava vivo. Deixei-o lá lavada em lágrimas e saberia que este era o último dia dele em vida e ninguém acreditava em mim, eu disse, e não era falta de fé, mas sim ver os factos. Aceitei a realidade muito antes de todos e não era por ser fria, mas por saber que era o melhor para ele, por ele estar a sofrer. O mais incrível é que alguns de nós acordamos a 1h da manha, hora que ele deixou o mundo, a hora que ele foi para um mundo melhor. Chorei, berrei, senti uma dor avassaladora no meu coração, senti algo a cair, perdi forças, vi a minha tia a chorar e ainda me doeu muito mais. Saber que ele tinha desistido e o pior desistiram dele, passou apenas 9 dias no hospital, mais nada, não lutou mais. Sei o que ele pensou, ele no primeiro dia, ele assim « leva o tio para casa, estou lá melhor » isso magoou-me tanto, mas tanto, que nunca imaginei. Sei que ele lutou o que podia e quase o que não podia, mas custa não ter feito mais- Devia ter feito, mais coquinhas, podia ter feito mais festinhas na cabeça, podia ter dito mais vezes « eu amo-lhe », podia ter dito mais vezes « meu velhinho ». Custa chegar a casa e não dizer « velhinho », custa ter sempre o sofá vazio, custa dormir no cantinho dele, custa saber que partiu. Mas guardo a parte boa, guardo os momentos bons, guardo todas as coisas lindas que me fez, todas as maravilhas que ele me fez, guardo cada sorriso, cada gargalhada, cada anedota, cada boleia. Tudo porque ele foi a pessoa mais importante e a qual me ensinou mais coisas lindas. A vida levou-o da sua companhia, mas não o levou do meu coração. Até sempre. amolhe tudo junto, para que a distância não nós separe , e que o amor permaneça.
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